Há 30 anos, Curitiba deu início aos comícios das Diretas-Já

Gabriel Manzano, do jornal O Estado de S.Paulo  –  Cerca de 40 mil pessoas estavam na praça naquela quinta-feira, 12 de janeiro, para surpresa de Ulysses, dos governadores Tancredo Neves (MG), Franco Montoro (SP) e José Richa (PR), do animado locutor Osmar Santos – e também dos militares. No dia seguinte, uma multidão semelhante lotou o centro de Porto Alegre. Duas semanas mais tarde, a Praça da Sé, em São Paulo, foi tomada por cerca de 100 mil pessoas. Exausto, atolado na inflação, o regime militar, velho de 20 anos, assistiu por três meses à animação das Diretas-Já se espalhar pelo País. Um ato no Rio de Janeiro e outro no Anhangabaú, em São Paulo, reuniram aproximadamente 1 milhão de pessoas.

O movimento sofreu um golpe mortal três meses depois, em 25 de abril, quando a emenda constitucional que propunha eleições diretas foi derrotada no Congresso: precisava de 320 votos e só conseguiu 298. A campanha, no entanto, fixou o momento em que as oposições passaram ao ataque contra um governo que não sabia como reagir. Um ano depois do comício de Curitiba, em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves era eleito presidente por um colégio eleitoral. A ditadura acabava.

Amadora. O sucesso do primeiro comício das Diretas-Já surpreendeu todo mundo. “Lotamos a Boca Maldita com uma convocação bastante amadora. Dissemos que íamos fazer, distribuímos alguns panfletos e foi só”, lembrou depois o então deputado Nilson Sguarezi, do PMDB. “Organizamos tudo em 12 dias e o resultado surpreendeu”, afirmou Alvaro Dias, na época deputado pelo PMDB.

“Organizar tudo” incluía alugar dezenas de ônibus para buscar eleitores nos bairros e até em cidades próximas, convidar cantores, escolas de samba, artistas de TV. A multidão vibrou quando Bete Mendes, atriz e deputada (PT), propôs “tomar o Palácio do Planalto”.

Trinta anos depois, o historiador Boris Fausto considera que aquele início da campanha das Diretas-Já “foi essencial, de caráter pluriclassista, um momento extraordinário”. Mas o historiador viu também “algo excessivo: as esperanças depositadas na campanha”. Achava-se que as eleições diretas iam instaurar a democracia, acabar com a inflação. “Não era tudo isso. Mas abriu caminho e a campanha indireta de Tancredo herdou seu vigor e entusiasmo e acabou vencendo em 1985.”

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