O ministro Mandetta e o Mito da Caverna

Durante a entrevista coletiva dessa segunda-feira (6.4.20), quando anunciou a sua permanência no governo federal, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, revelou que no último fim de semana (4 e 5.4.20) fez uma pausa no trabalho e leu, pela vigésima vez em sua vida, o livro Mito da Caverna, obra de Platão escrita em forma de diálogo e que pode ser lida no livro VII de A República. O ministro até brincou, dizendo que até hoje não entendeu bem o texto do filósofo grego.

A obra, também conhecida como Alegoria da Caverna, revela a relação estabelecida pelos conceitos de escuridão e ignorância, luz e conhecimento. Platão descreve uma situação passada no interior de uma caverna, em que prisioneiros foram mantidos, acorrentados, desde o seu nascimento. Os prisioneiros só podiam ver uma parede, na qual sombras eram projetadas por uma fogueira permanentemente acesa. Para eles, toda a realidade eram as tais sombras, pois nunca haviam tido outras experiências.

Um belo dia, um dos prisioneiros consegue escapar e,então, parte para explorar o interior da caverna. Descobre que as tais sombras eram controladas por pessoas atrás da fogueira. Depois, ele sai da caverna e o que vê é uma realidade completamente diferente, mas ampla e complexa. Surge então um dilema: esse homem pode voltar e libertar os demais prisioneiros ou continuar fora da caverna e se adaptar à nova realidade? Se ele voltar e contar o que viu, talvez os outros não acreditem, uma vez que a verdade – para eles – é apenas o que conseguiam observar no interior da caverna.

Interpretação – Segundo a professora e mestre em História Juliana Bezerra, “com o Mito da Caverna, Platão revela a importância da educação e da aquisição do conhecimento, sendo esse o instrumento que permite aos homens estar a par da verdade e estabelecer o pensamento crítico. O senso comum,  que dispensa estudo e investigação, é representado pelas impressões aparentes vistas pelos homens através das sombras. O conhecimento científico, por sua vez, baseado em comprovações, é representado pela luz”.

Para ela, “assim, tal como o prisioneiro liberto, as pessoas também podem ser confrontadas com novas experiências que ofereçam mais discernimento. O fato de passar a entender coisas pode, no entanto, ser chocante e esse fato inibidor para que continuem a buscar conhecimento”.

Explica a professora  que isso ocorre “porque a sociedade tem a tendência de nos moldar para aquilo que ela quer de nós, que é aceitar somente o que nos oferece através da informação transmitida em meios de comunicação e não só”. Desde a Antiguidade,diz a professora, “Platão quer mostrar a importância da investigação para que sejam encontrados meios de combate ao sistema, o qual limita ações de mudança”.

Muitas cavernas – Já para o professor de Filosofia, Sociologia e Atualidades Richard Garcia,  “a mensagem de Platão ao mundo atual é que o ser humano deveria procurar as verdades em si, sem se contentar com as meras opiniões ou preconceitos. O homem deveria se empenhar em uma atitude de investigação, pesquisa, discernimento, aprofundamento, problematização, criticidade, enfim, se empenhar na atitude filosófica, para que consiga atingir o bem maior para sua vida, que só pode ser decorrência da verdade ou, pelo menos, da busca sincera e incessante por ele”.

Richard Garcia diz que, “no dia a dia, muitas são as cavernas em que nos envolvemos e nos encontramos, seja por comodismo ou alienação, e encontramo-nos enganados e submersos, sem nos darmos conta de que tudo é mera especulação ou ilusão”. (Textos do site Toda Matéria conteúdos escolares e do jornal Estado de Minas).

Reproduzido do blog Contraponto.

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