Depois do vendaval

Por Walter Schmidt – Os eleitores de Jair Bolsonaro, as pesquisas eleitorais e a boa parte da mídia estão dizendo que a vitória do candidato do PSL, no domingo 28 de outubro de 2018, representa uma verdadeira tempestade de votos, algo pouco visto na história das eleições brasileiras – talvez equiparada apenas à expressiva votação obtida por Jânio Quadros em 1960.

Mas, e depois, o que acontecerá? Passada a onda, e com a “vingança” antipetista realizada, começará para o ex-capitão Bolsonaro a hora de a onça beber água, ou seja, terá chegado para ele o momento de realizar as articulações e a montagem do futuro governo. E então deverão surgir as primeiras decepções dos eleitores, pois será quebrada a (talvez) principal promessa da campanha: a de nomear apenas técnicos para os cargos de ministros, secretários e diretores de estatais, sem qualquer indicação ou negociação partidária.

Na verdade, Bolsonaro simplesmente não conseguirá cumprir a promessa. Como se sabe, ele precisará governar com o apoio de alguns partidos afinados com o seu programa e seu pensamento. E é natural que assim seja. Mas os eleitores, iludidos pelo canto da sereia, não entenderão o comportamento do “mito”. Muita gente o chamará de traidor, além de qualificá-lo como político igualzinho aos outros.

O candidato tido como vitorioso não resistirá às pressões – e serão muitas. Políticos, empresários de toda ordem, lobistas, militares, banqueiros, líderes religiosos e intelectuais de direita deverão dar os seus “pitacos” e palpites, pois se sentem co-responsáveis pela eleição dele. Todos hão de querer uma fatia do imenso bolo governamental, todos defenderão os seus interesses, criando dificuldades e tumultuando o processo de montagem do governo.  O toma lá dá cá não perdoa.

O ex-capitão certamente capitulará diante das pressões, frustrando os seus eleitores. Ele não poderá sustentar o que disse durante a campanha sob pena de enfrentar uma oposição antes mesmo de tomar posse. Terá, então, de arrumar uma desculpa para justificar os seus arranjos.

Depois do vendaval de votos sempre aparece o vendaval de problemas. E desta vez, como sempre aconteceu e acontece no sistema presidencial brasileiro, não será diferente.

 

Walter Schmidt é jornalista.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *