Doença infantil

 

Por Ivan Schmidt – Uma conclusão pode ser tirada pelos observadores da cena política brasileira a partir da disputa pela presidência da República com a qual concordo: Ciro Gomes (PDT) é o candidato com a maior dose de probabilidade de derrotar no segundo turno o oponente do Partido dos Trabalhadores (PT), mesmo que ele viesse a ser Luiz Inácio Lula da Silva, considerando-se a total impossibilidade de que isso aconteça, sob pena de lançar às traças quaisquer resquícios da existência de Justiça no país.

A hipótese seguinte, caso Jair Bolsonaro venha a ser o vencedor do primeiro turno, ainda estaria válida, recaiando sobre o ex-governador do Ceará e ex-ministro da Fazenda de Itamar Franco, a maior chance de derrotar o messiânico candidato da extrema direita.

O quadro ajuda a melhor entender a veleidade demonstrada pelo PT em forçar a retirada da candidatura da vereadora recifense Ana Arraes (neta de Miguel Arraes) ao governo de Pernambuco. A cartada beneficia a candidatura à reeleição do atual governador Paulo Câmara (PSB).

Vale acrescentar que a luta de Ciro para conquistar o apoio do PSB pernambucano (como fez antes para atrair o Centrão), teve como motivação o fato notório de o partido reunir sua maior expressão nacional exatamente naquele Estado.

A contrapartida foi o cancelamento do apoio do PSB ao candidato Ciro Gomes, que deverá entrar na campanha propriamente dita sem nenhuma coligação a seu favor, com miseráveis 26 segundos em cada bloco do horário eleitoral fixo de 12 minutos e trinta segundos.

Decisão igual foi tomada pela direção petista em Minas Gerais, onde o PSB esnobou a pretensão de Ciro Gomes de chegar à presidência da República adicionando a força do voto mineiro. A operação foi simples e resultou no esvaziamento da pré-candidatura ao governo do ex-prefeito de Belo Horizonte Márcio Lacerda, fortalecendo os planos do governador Fernando Pimentel (PT) que tentará a reeleição.

Também no Estado de São Paulo a engenharia política do PT e PSB acabou beneficiando o atual governador Márcio França (PSB), que concorre à reeleição e com liberdade para marchar ao lado de Geraldo Alckmin (PSDB) de quem foi vice, na campanha presidencial.

O saldo amplamente desfavorável à candidatura de Ciro Gomes, político que apesar dos não pequenos disparates verbais cometidos em ocasiões recentes, abusou da recorrência no esforço atual, condenando-se a arcar com um isolamento que lhe será fatal em outubro.

A fragmentação da esquerda brasileira, ou seja, a total impossibilidade de reunir todas as vertentes similares em torno de candidatura única, pondo de lado diferenças de enfoque e visões estritamente pessoais, numa prova incontestável de regressão política, ao que parece está contente com a prática do comportamento definido por Lenin como “doença infantil do esquerdismo”.

Em outras palavras, a empedernida vocação para o separatismo ideológico, mesmo que seja esse o caminho mais rápido, segundo a história, para o ostracismo e a falta de importância no embate político.  (2/8/2018).

Ivan Schmidt é jornalista.

 

 

 

 

 

 

 

Um coentário em “Doença infantil

  1. O nome correto da vereadora do Recife é Marília e não Ana como escrevi. A propósito, tanto ela quanto o ex-prefeito Márcio Lacerda (BH) rifados pelo PT e PSB, insistem em manter as candidaturas aos governos de Pernambuco e Minas Gerais.

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